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A Queda de “El Mencho”: O Fim de Uma Era e o Novo Xadrez Global do Narcotráfico

  • 24 de fev.
  • 8 min de leitura

Por Cleiber Levy G. Brasilino; Ricardo Matias Rodrigues e Rodrigo Duton Alves.


A neutralização de Nemesio Rubén Oseguera Cervantes, o “El Mencho”, em 22 de fevereiro de 2026, marca um ponto de inflexão na história da segurança pública hemisférica. Morto durante uma operação militar de precisão em Tapalpa, Jalisco, o líder máximo do Cartel Jalisco Nueva Generación (CJNG) não era apenas o criminoso mais procurado do México, mas o arquiteto de uma corporação criminal transnacional que redefiniu as regras do narcotráfico.

Para compreender a magnitude deste evento, é imperativo ir além das fronteiras mexicanas. A queda de El Mencho ecoa diretamente nos portos europeus e nas penitenciárias de segurança máxima do Brasil, alterando um ecossistema criminal onde o CJNG operava com uma receita anual estimada entre US$ 8 e US$ 12 bilhões. O que se desenha agora não é o fim do tráfico, mas uma perigosa reconfiguração geopolítica.


Um Século de Narcotráfico: A Evolução dos Cartéis Mexicanos

A ascensão do CJNG e de seu líder não ocorreu no vácuo; ela é o produto de quase um século de evolução criminal no México. A primeira geração de traficantes emergiu entre as décadas de 1930 e 1970 no “Triângulo Dourado” (Sinaloa, Durango e Chihuahua). Pioneiros como Pedro Avilés Pérez inauguraram o contrabando aéreo, mas foi a Operação Condor, em 1976, que forçou a migração desses criminosos para Guadalajara, plantando as sementes do narcotráfico moderno.

E ntre 1978 e 1989, o Cartel de Guadalajara, fundado por Miguel Ángel Félix Gallardo, Rafael Caro Quintero e Ernesto Fonseca Carrillo, operou a primeira grande estrutura corporativa da droga, sustentada por alianças corruptas com o aparato de inteligência estatal mexicano (DFS). A queda dessa organização, precipitada pelo assassinato do agente da DEA Enrique “Kiki” Camarena em 1985, resultou na primeira grande balcanização do narcotráfico, dividindo o território entre os nascentes cartéis de Sinaloa, Tijuana e Juárez.

Na virada do milênio, com o colapso dos cartéis colombianos de Medellín e Cali, as organizações mexicanas assumiram o protagonismo global. Esta segunda geração, liderada por figuras como Joaquín “El Chapo” Guzmán (Sinaloa), transformou o tráfico em uma rede logística global.

Contudo, foi a controversa “Guerra às Drogas” iniciada em 2006 pelo então presidente Felipe Calderón (com a “Estratégia Kingpin” focada em abater grandes líderes) que gerou o caos necessário para o surgimento da terceira geração: os disruptores ultraviolentos. É exatamente dessa fratura institucional e criminal que emerge Nemesio Oseguera Cervantes.


De Policial a Capo Global: A Trajetória de “El Mencho”

Nascido na pobreza em Aguililla, Michoacán, em 1966, El Mencho iniciou sua vida no crime emigrando ilegalmente para os Estados Unidos, onde foi condenado por tráfico de heroína em 1994. Deportado em 1997, sua trajetória tomou um rumo paradoxal: infiltrou-se no Estado, tornando-se policial estadual em Jalisco.

Logo, migrou para o Cartel Milenio, atuando como pistoleiro e consolidando alianças, notadamente por meio de seu casamento com Rosalinda González Valencia, do clã financeiro “Los Cuinis”. O ponto de virada ocorreu em 2010. Com a morte de Ignacio “Nacho” Coronel (operador do Sinaloa em Jalisco), El Mencho rompeu alianças e venceu uma sangrenta guerra intestina, fundando o Cartel Jalisco Nueva Generación (CJNG).

Sua genialidade criminal residiu na criação de uma “fórmula híbrida”: ele combinou a sofisticação logística transnacional do Cartel de Sinaloa com as táticas paramilitares ultraviolentas do extinto grupo Los Zetas. Sob seu comando, o CJNG adotou o uso de drones armados, lança-foguetes (RPG) e veículos blindados artesanais.

O confronto direto com o Estado tornou-se sua marca. Em 2015, o cartel abateu um helicóptero militar do Exército, matando nove soldados. Em 2020, executou um atentado espetacular no coração da Cidade do México contra Omar García Harfuch, chefe de segurança local. Ironicamente, as perdas sucessivas de seu círculo íntimo de confiança; incluindo a condenação perpétua de seu filho “El Menchito” nos EUA em 2025; isolaram El Mencho, culminando em sua localização e morte.


A Conexão Brasileira: Hub Logístico e o Caso “El Chepa”

Longe de ser apenas um mercado consumidor, o Brasil consolidou-se como um hub logístico vital para a engrenagem do CJNG. A presença da organização em território nacional foi escancarada de forma contundente em dezembro de 2017, com a prisão de José González Valencia, vulgo “El Chepa”, pela Polícia Federal no Ceará.

Líder dos “Los Cuinis” (o braço financeiro do CJNG) e cunhado de El Mencho, El Chepa vivia foragido na Bolívia com identidade falsa e utilizava o nordeste brasileiro como destino de lazer e articulação de lavagem de dinheiro. Detido em Aquiraz (CE), ele passou quase quatro anos na Penitenciária Federal de Mossoró (RN), uma unidade de segurança máxima.

Esse período carcerário expôs uma ferida profunda na segurança regional: a convivência forçada, e estratégica, com a cúpula do Primeiro Comando da Capital (PCC).

A relação entre o CJNG e o PCC, contudo, deve ser lida com rigor técnico. Trata-se de uma relação de cliente-fornecedor, não de subordinação. O PCC controla a logística de saída portuária (especialmente no Porto de Santos), enquanto o CJNG atua na compra dessa logística, no fornecimento da cocaína andina (via Tríplice Fronteira) e na prospecção do parque químico brasileiro para a obtenção de precursores de metanfetamina e fentanil.

A passagem de um operador global do calibre de El Chepa (extraditado para os EUA em 2021 e condenado em 2025) prova que o Brasil é tratado pelas superestruturas mexicanas como base de refúgio, lavagem de ativos e negociação geopolítica.


Impactos Transnacionais: A Europa e os Laboratórios Sintéticos

O CJNG não se limitou às Américas. O cartel reconfigurou o mercado europeu de drogas sintéticas. Agências de inteligência, como a Europol, documentaram desde 2019 a prisão de dezenas de “cozinheiros” mexicanos operando laboratórios industriais de d-metanfetamina (método BMK) na Holanda e na Bélgica, a serviço do CJNG.

O cartel de El Mencho utilizava os portos de Antuérpia, Roterdã e Algeciras para introduzir cocaína e exportar sintéticos, estabelecendo parcerias logísticas vitais com máfias como a ‘Ndrangheta italiana e a Mocro Maffia holandesa. Diferente de outras gerações criminosas, o CJNG atuava como uma corporação que vendia “franquias” e know-how químico, sem a necessidade de controle territorial direto nas ruas europeias.


Cenários Prospectivos: O Mundo Pós-Mencho

Com o Cartel de Sinaloa mergulhado em uma guerra civil desde a controversa captura de Ismael “El Mayo” Zambada em julho de 2024, e o CJNG agora decapitado de seu líder fundador, o Hemisfério Ocidental entra na zona de maior turbulência institucional e criminal das últimas duas décadas. A análise de inteligência projeta três grandes cenários estruturais para os próximos meses:

1) A Balcanização Mexicana e a “Batalha por Jalisco” (60% a 70% de probabilidade): A sucessão no CJNG é particularmente complexa devido à neutralização prévia de quase todo o círculo familiar de El Mencho. O cenário mais provável é o de fragmentação violenta, opondo dois eixos centrais de poder: a legitimidade familiar versus o poder bélico.

a. De um lado, os “herdeiros de sangue”, representados por Julio Alberto Castillo Rodríguez (“El Chorro”, genro e gestor financeiro) e Juan Carlos Valencia González (“El 03”, enteado e comandante do temido Grupo Élite).

b. Do outro, os comandantes “pragmáticos” de praça, liderados por generais como Hugo Gonzalo Mendoza Gaytán (“El Sapo”, chefe da estrutura militar) e Ricardo Ruíz Velasco (“El Doble R”, cérebro da propaganda armada do cartel).

c. A história do narcotráfico mexicano indica que em 70% dos casos de eliminação de cúpula, a fragmentação prevalece sobre a unificação. Projeta-se uma “insurgência aberta” e o aumento de 30% a 50% nas taxas de homicídios e narcobloqueios em estados críticos como Jalisco, Guanajuato e Michoacán. Esta escalada gera um risco de segurança sem precedentes, considerando que Guadalajara (Jalisco) é uma das cidades-sede da Copa do Mundo FIFA de 2026.

2) A Ascensão do PCC como “Corretor Soberano” e o Impacto no Brasil: A desarticulação das duas maiores superestruturas mexicanas (Sinaloa e CJNG) simultaneamente altera a balança de poder transatlântica, beneficiando diretamente o Primeiro Comando da Capital (PCC). Com o fornecedor mexicano em crise sucessória, o PCC se consolida não apenas como parceiro, mas como o maior e mais estável operador logístico independente do narcotráfico global.

a. Reajuste de Preços e Rotas: A instabilidade na oferta de fentanil e precursores químicos, outrora garantida pelo CJNG, permitirá à facção brasileira renegociar para cima as margens de lucro sobre a utilização do Porto de Santos.

b. Diversificação de Fornecedores: Operando de forma autônoma, o PCC tem margem para mitigar o risco mexicano estreitando laços de compra diretos com a ‘Ndrangheta italiana, com facções colombianas residuais e com a dissidência “Los Chapitos” do Cartel de Sinaloa.

c. Vulnerabilidade na Tríplice Fronteira: A quebra do comando central em Jalisco pode deixar operadores financeiros do cartel “órfãos” na região da fronteira entre Brasil, Paraguai e Argentina. Sem a disciplina imposta por El Mencho, essas células podem iniciar disputas violentas e autônomas pelo controle de rotas de lavagem de dinheiro no Cone Sul.

3) A Desintermediação Europeia e a Absorção Tecnológica: A inteligência europeia (Europol) já documentou a prisão de mais de 19 especialistas químicos mexicanos operando laboratórios de d-metanfetamina (utilizando o avançado método de síntese BMK) na Holanda, Bélgica e Espanha. Sem o controle férreo e o fluxo de capital coordenado a partir de Jalisco, abrem-se três subcenários na Europa:

a. “Nacionalização” das Operações: Redes criminosas hiper-estruturadas locais, como a Mocro Maffia holandesa e a ‘Ndrangheta calabresa, têm capital para absorver integralmente a infraestrutura de laboratórios e os “cozinheiros” mexicanos isolados no continente, eliminando o pagamento de dividendos ao CJNG (“desintermediação corporativa”).

b. Células Autônomas: As representações operacionais do CJNG em portos vitais como Antuérpia, Roterdã e cidades espanholas (Valência e Madrid) podem se fragmentar, tornando-se pequenas facções independentes focadas na distribuição continental de cocaína.

c. Janela Policial: A quebra temporária na cadeia de comando e nas comunicações criptografadas entre o México e a Europa oferece uma janela de oportunidade tática de 6 a 12 meses para operações coordenadas entre a Europol e polícias federais sul-americanas desmantelarem a infraestrutura remanescente.


Conclusão

A operação em Tapalpa foi um triunfo tático indiscutível para o Estado mexicano e para a cooperação de inteligência internacional. No entanto, a morte de Nemesio Oseguera Cervantes não encerra a ameaça do CJNG, mas a metamorfoseia. A história dos cartéis nos ensina que o vácuo de poder na cúpula invariavelmente irriga o solo para o surgimento de estruturas ainda mais voláteis. Para o Brasil e para a Europa, a queda do império de El Mencho exige não celebração, mas prontidão máxima nas fronteiras, inteligência financeira redobrada e patrulhamento cirúrgico em seus complexos portuários. O rei está morto; a guerra, no entanto, acaba de ganhar um novo e imprevisível capítulo


Sobre os Autores:

Cleiber Levy G. Brasilino é Doutor em Gestão Estratégica, Ciências Policiais e Segurança Pública Preventiva, especialista em Comunicação, Gestão Pública, Inteligência Estratégica, Psicologia Fenomenológica Existencial, Neurolinguística, e Direito. Tenente-Coronel da Polícia Militar do Tocantins. Autor das obras “Guerra Informacional na Segurança Pública”, “Fundamentos da Comunicação Pública para Instituições de Segurança” e “Manual de Storytelling para o Setor Público”.

Ricardo Matias Rodrigues é Bacharel em Ciências Econômicas. Possui MBA Executivo em Gerenciamento de Crises e é especialista em Ciências Policiais, Inteligência Competitiva e Contrainteligência Corporativa. Atua como professor de pós-graduação na Escola da Magistratura Federal do Paraná (ESMAFE) e é coautor da obra Alpha Bravo Brasil: Crimes Violentos contra o Patrimônio.

Rodrigo Duton Alves é Tenente-Coronel da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro (PMERJ) e bacharel em Direito. Possui Mestrado Internacional em Segurança, Inteligência e Estudos Estratégicos (IMSISS), realizado em consórcio pela University of Glasgow, Dublin City University e Charles University (Praga). Atua como Professor Adjunto no George C. Marshall European Center for Security Studies, na Alemanha, e é Pesquisador Não-Residente no Australian Strategic Policy Institute (ASPI), em Canberra. É membro da Network of Experts da Global Initiative Against Transnational Organized Crime (GI-TOC) e integrante do Instituto Brasileiro de Segurança Pública (IBSP).

 
 

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