Quando a taxa de homicídios não conta toda a história: uma perspectiva relacional da criminalidade violenta
Leonardo de Andrade Carneiro. https://orcid.org/0000-0003-2388-7516

Dois países apresentam taxas semelhantes de homicídio. Isso significa que enfrentam configurações semelhantes de criminalidade violenta?
A taxa de homicídios constitui um dos principais indicadores utilizados para comparar a violência entre países e territórios. Permite dimensionar a violência letal, acompanhar suas mudanças ao longo do tempo e estabelecer comparações entre diferentes contextos. Entretanto, quando considerada isoladamente, não informa as condições sociais, demográficas, institucionais e criminais nas quais esses homicídios ocorrem.
Dois países podem apresentar níveis próximos de violência letal e, simultaneamente, diferenças quanto à renda, desenvolvimento humano, urbanização, encarceramento, características demográficas e presença de determinados atores criminais. Da mesma forma, mudanças semelhantes nas taxas de homicídio não significam necessariamente que esses países estejam percorrendo trajetórias semelhantes (Carneiro, 2026).
O problema, portanto, não está na utilização da taxa de homicídios. Sua importância permanece. A questão está em compreender o que essa medida revela e o que deixa de revelar quando utilizada isoladamente. Essa distinção permite deslocar a análise da magnitude da violência para as configurações nas quais ela ocorre.
Da magnitude à configuração
Magnitude, configuração, posição e deslocamento representam dimensões distintas da análise. A magnitude corresponde ao valor observado de determinada propriedade. A configuração refere-se à combinação das propriedades consideradas. A posição corresponde à localização relativa ocupada por determinada unidade no espaço multidimensional, enquanto o deslocamento representa mudanças nessa posição ao longo do tempo (Carneiro, 2026).
Essa distinção é importante porque magnitudes semelhantes não implicam necessariamente configurações ou posições semelhantes. Essa questão já havia aparecido em análises anteriores sobre o Espaço Relacional dos Homicídios (ERH). Ao considerar conjuntamente homicídios e diferentes propriedades sociais, econômicas, demográficas e criminais, observou-se que a magnitude dos homicídios não definia isoladamente a posição ocupada pelas unidades analisadas. As posições adquiriam significado a partir das relações entre as propriedades consideradas e das distâncias e proximidades estabelecidas no espaço relacional (Carneiro, 2024; Carneiro; Barbosa, 2024).
A comparação internacional ampliou esse problema para outra escala de análise.
O que mostram 23 países entre 2017 e 2023?
Carneiro (2026a) analisou as posições relativas de 23 países entre 2017 e 2023, totalizando 161 observações país-ano. Foram consideradas conjuntamente as taxas de homicídio e encarceramento, renda, urbanização, desenvolvimento humano ajustado à desigualdade e fecundidade adolescente.
A Análise de Componentes Principais (ACP) foi utilizada para representar as relações entre essas propriedades e as posições relativas ocupadas pelos países. As duas primeiras componentes explicaram conjuntamente 77,75% da variância total, sendo 52,22% correspondentes à primeira componente e 25,53% à segunda (Carneiro, 2026a).
Figura 1 –Projeção das propriedades no espaço definido pelas duas primeiras componentes principais

Fonte: Carneiro (2026a).
A primeira componente (CP1) apresentou maior associação com desenvolvimento humano ajustado à desigualdade, renda, fecundidade adolescente e homicídios. Desenvolvimento humano e renda posicionaram-se em sentido oposto à fecundidade adolescente e aos homicídios. A segunda componente (CP2) foi estruturada principalmente por urbanização, encarceramento e homicídios (Carneiro, 2026).
Nesse contexto, o homicídio participa das duas componentes, mas em configurações distintas. Na CP1, encontra-se relacionado a uma estrutura que envolve desenvolvimento humano, renda e fecundidade adolescente; na CP2, aparece associado principalmente à urbanização e ao encarceramento. Assim, a mesma propriedade, o homicídio, assume significado relacional diferente conforme a configuração na qual está inserida.
Homicídios semelhantes, posições diferentes
A projeção das 161 observações país-ano permite visualizar as posições ocupadas pelos países nas duas componentes e seus deslocamentos entre 2017 e 2023 (Carneiro, 2026a).
Figura 2 – Posições e deslocamentos das observações país-ano no espaço definido pelas duas primeiras componentes principais

Fonte: Carneiro (2026a).
A Figura 2 evidencia que países com taxas semelhantes de homicídio podem ocupar posições distintas, uma vez que cada posição resulta da combinação das propriedades consideradas. Também mostra que essas posições podem se modificar ao longo do tempo, produzindo deslocamentos distintos entre os países.
Esses deslocamentos não representam categorias fixas nem podem ser atribuídos isoladamente à mudança de uma única variável. Expressam mudanças na posição relativa das observações no espaço analisado (Carneiro, 2026a).
E o crime organizado?
A análise também examinou, de forma complementar, indicadores relacionados a grupos do tipo mafioso e redes criminosas. Como esses indicadores se referiam a período diferente daquele utilizado na ACP, não participaram da construção do espaço principal, sendo posteriormente relacionados às posições médias dos países (Carneiro, 2026).
Os resultados indicaram associação desses indicadores com a posição média dos países na CP1, enquanto na CP2 não foram identificadas associações estatisticamente significativas. O resultado reforça o argumento central: mesmo a presença de determinados atores criminais não é suficiente, isoladamente, para caracterizar a posição de um país. A posição depende da configuração das propriedades consideradas.
Por que pensar relacionalmente?
A compreensão da criminalidade a partir das relações entre indivíduos, grupos, comunidades e territórios possui uma longa trajetória na sociologia e na criminologia.
A Teoria da Associação Diferencial deslocou parte da explicação do comportamento criminal de características individuais isoladas para os processos de interação social. Para Sutherland (1947), o comportamento criminal é aprendido por meio da interação com outras pessoas, envolvendo técnicas, motivos, racionalizações e definições favoráveis ou desfavoráveis à violação da lei.
A Teoria da Aprendizagem Social ampliou essa perspectiva ao incorporar, entre outros elementos, mecanismos de reforço diferencial e imitação, permitindo compreender a aprendizagem do comportamento criminal como processo inserido em relações sociais mais amplas (Akers, 1998).
Em outra escala analítica, Shaw e McKay (1942), ao estudarem a distribuição espacial da delinquência em Chicago, demonstraram a importância das características comunitárias para compreender a persistência territorial da criminalidade. Essa tradição contribuiu para deslocar parte da análise para os contextos sociais e territoriais nos quais os indivíduos e grupos estão inseridos.
Posteriormente, Sampson e Groves (1989) reformularam empiricamente aspectos da Teoria da Desorganização Social (TDS), destacando mecanismos relacionados à capacidade de organização das comunidades. Esse desenvolvimento ganhou outra dimensão com o conceito de eficácia coletiva (EFC), compreendido a partir da articulação entre confiança social e disposição compartilhada para exercer controle social informal (Sampson; Raudenbush; Earls, 1997).
Essas contribuições são importantes porque permitem evitar interpretações deterministas. Condições socioeconômicas desfavoráveis não devem ser automaticamente convertidas em explicações para a criminalidade. A desvantagem concentrada deve ser compreendida em sua articulação com mecanismos comunitários, institucionais e relacionais, e não como causa necessária do comportamento criminal ou da violência (Sampson; Raudenbush; Earls, 1997).
A perspectiva relacional de Bourdieu (1989, 1996) acrescenta outra dimensão ao problema. O espaço social não é constituído simplesmente pela soma de atributos individuais, mas pelas relações entre posições. Proximidades e distâncias adquirem significado em função da estrutura de relações existente no espaço.
Essa perspectiva não deve ser transportada mecanicamente para a análise da criminalidade. Entretanto, oferece uma orientação analítica relevante: as propriedades podem ser examinadas não apenas por seus valores isolados, mas pelas relações que estabelecem entre si e pelas posições que contribuem para estruturar.
É justamente nesse sentido que a análise internacional utiliza a noção de espaço relacional (Carneiro, 2026).
Do ERH ao Espaço Relacional da Criminalidade Violenta (ERCV)
O desenvolvimento dessa perspectiva possui antecedentes nas pesquisas sobre o Espaço Relacional dos Homicídios (ERH). Na tese Espaço relacional dos homicídios nos estados da região Norte do Brasil: análise das ações governamentais na redução de homicídios, foram examinadas as relações entre homicídios, fatores sociais e econômicos e ações governamentais nos estados da Região Norte, entre 2012 e 2019, tendo como referências a Teoria da Desorganização Social (TDS) e os princípios do espaço social de Bourdieu (Carneiro, 2024).
A utilização da Análise de Correspondência Múltipla permitiu representar relações de proximidade e distanciamento entre propriedades e observar as posições ocupadas pelos estados no espaço construído. O interesse analítico, portanto, não se restringia à magnitude dos homicídios, mas incorporava as relações entre diferentes propriedades e as posições resultantes dessas relações (Carneiro, 2024).
Esse percurso foi posteriormente ampliado para outras unidades de análise. Em estudo com indivíduos privados de liberdade, observou-se que pessoas envolvidas com crimes violentos não constituíam um conjunto homogêneo. Foram identificadas diferenças geracionais, educacionais, familiares, ocupacionais, territoriais e relacionadas às próprias trajetórias criminais, resultando em posições distintas no espaço analisado (Carneiro, 2023).
Em outra escala, a análise dos estados brasileiros mostrou que a magnitude dos homicídios também não era suficiente para definir suas posições quando consideradas conjuntamente diferentes propriedades sociais, econômicas, demográficas e criminais (Carneiro; Barbosa, 2024).
A ampliação do ERH para uma abordagem mais abrangente da criminalidade foi aprofundada em trabalhos posteriores. A análise de criminalidade violenta, território e relações sociais enfatizou a necessidade de compreender a violência em articulação com os contextos territoriais e com as relações sociais nas quais indivíduos, grupos e práticas estão inseridos (Carneiro, 2026b). A discussão sobre posições diferentes e trajetórias diferentes avançou na problematização da relação entre posição relacional e trajetória, reforçando que posições semelhantes não implicam necessariamente percursos semelhantes (Carneiro, 2026c). Em outra análise, o espaço relacional da criminalidade no Tocantins foi explorado a partir de diferentes eixos de diferenciação, contribuindo para ampliar a reflexão sobre as configurações assumidas pela criminalidade em contextos territoriais específicos (Carneiro, 2026d).
Esses desenvolvimentos contribuíram para deslocar progressivamente a análise de um espaço definido especificamente pelos homicídios para uma proposta analítica mais ampla voltada à criminalidade violenta.
A comparação internacional representou outro movimento dessa ampliação. Ao analisar 23 países entre 2017 e 2023, Carneiro (2026a) mostrou que magnitudes semelhantes de homicídio não correspondem necessariamente a configurações e posições equivalentes. O estudo também avançou na distinção entre magnitude, configuração, posição e deslocamento, permitindo examinar não apenas o nível observado da violência, mas as relações entre diferentes propriedades e as mudanças nas posições relativas ao longo do tempo.
É nesse percurso que se insere o desenvolvimento do Espaço Relacional da Criminalidade Violenta (ERCV).
O ERCV não constitui uma teoria consolidada. Trata-se de uma proposta analítica em construção, que amplia a unidade de análise para investigar processos de aproximação, entrada, permanência, circulação e afastamento de indivíduos, grupos e territórios em relação à criminalidade violenta.
Seu desenvolvimento articula contribuições provenientes de perspectivas teóricas distintas e situadas em diferentes níveis de análise, sem tratá-las como partes de uma teoria única. O interesse está em compreender as relações entre socialização, aprendizagem, território, instituições, redes de relações, dinâmica criminal, capacidade estatal, eficácia coletiva, desvantagem concentrada e posições relacionais.
Nesse desenvolvimento, dois pressupostos assumem particular importância.
O primeiro é que aprender não significa pertencer. A Teoria da Associação Diferencial permite compreender que comportamentos, técnicas, motivos e definições favoráveis ou desfavoráveis à violação da lei são aprendidos nas interações sociais, enquanto a Teoria da Aprendizagem Social amplia essa compreensão ao incorporar mecanismos como reforço diferencial e imitação (Sutherland, 1947; Akers, 1998). No desenvolvimento do ERCV, entretanto, a aprendizagem é analiticamente diferenciada do pertencimento: a exposição a relações nas quais práticas, técnicas, justificativas ou definições favoráveis à criminalidade são aprendidas não implica, necessariamente, aproximação, entrada, pertencimento ou permanência na criminalidade (Carneiro, 2026b; Carneiro, 2026c).
O segundo é que posição não significa destino. As análises realizadas com diferentes unidades indicam que posições semelhantes ou determinadas propriedades compartilhadas não implicam necessariamente trajetórias equivalentes (Carneiro, 2023; Carneiro, 2024; Carneiro; Barbosa, 2024; Carneiro, 2026a; Carneiro, 2026c; Carneiro, 2026d). A posição expressa uma configuração relacional em determinado momento, mas não determina, por si mesma, comportamentos ou deslocamentos posteriores.
Esses dois pressupostos permitem considerar simultaneamente condicionamentos sociais e agência. O ERCV procura, assim, evitar tanto interpretações deterministas, que transformam condições sociais, territoriais ou posições relacionais em causas necessárias da criminalidade, quanto explicações que reduzem o fenômeno exclusivamente à decisão individual.
A questão que emerge desse percurso deixa, portanto, de ser apenas onde a criminalidade violenta é maior ou menor. Passa também a envolver quais posições indivíduos, grupos e territórios ocupam, como essas posições são configuradas e por quais processos podem aproximar-se, inserir-se, permanecer, circular ou afastar-se da criminalidade violenta.
Posição não é destino
A perspectiva relacional não elimina a importância das taxas de homicídio, das condições socioeconômicas, das instituições, dos processos de aprendizagem ou das decisões individuais. O que se questiona é a suficiência de qualquer uma dessas dimensões quando considerada isoladamente.
A taxa de homicídios continua sendo fundamental para dimensionar a violência. Entretanto, a comparação internacional mostra que magnitudes semelhantes podem estar inseridas em configurações diferentes e corresponder a posições distintas (Carneiro, 2026).
Da mesma forma, uma posição não deve ser interpretada como condição permanente. Os deslocamentos observados indicam que posições relativas podem se modificar ao longo do tempo, sem que essas mudanças possam ser atribuídas automaticamente a uma única propriedade.
Essa constatação possui implicações para a análise da criminalidade e para a segurança pública. Se contextos com níveis semelhantes de violência apresentam configurações distintas, diagnósticos baseados exclusivamente na magnitude do fenômeno podem deixar de considerar diferenças relevantes entre os territórios.
Isso não significa que a análise relacional determine quais políticas produzirão melhores resultados. A ACP identifica estruturas de associação e posições relativas, não mecanismos causais (Carneiro, 2026). Sua contribuição está, sobretudo, em ampliar as questões consideradas na análise.
Não basta perguntar:
Quanto de violência existe? Também é necessário perguntar:
Em quais configurações essa violência ocorre? Com quais propriedades se relaciona? Quais posições são produzidas por essas relações? Como essas posições se modificam ao longo do tempo?
E permanece uma questão relevante tanto para a pesquisa quanto para a segurança pública: Se níveis semelhantes de violência podem ocorrer em configurações sociais, territoriais, institucionais e criminais distintas, até que ponto respostas semelhantes são adequadas para contextos diferentes?
Referências
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